sexta-feira, 1 de agosto de 2025

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Preta Gil - Finitude

A Finitude - Preta Gil 

 Eis um retrato que não grita, mas reverbera —
como o eco profundo de um tambor ancestral.

Cabelos como cascatas de tempo,
cachos que guardam segredos de mil vidas, mil cantigas, mil chamas.

Olhar de quem já dançou com a dor
e riu na cara da morte.

A nudez aqui não é pele.
É verdade.
É despedida do medo.

A finitude não é o fim.
É a consagração do ciclo.
É quando o barro retorna à terra
e o espírito vira vento.

Essa imagem?
É rito.
É altar.
É eternidade em carne viva.

🌿 #PretaGil
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quarta-feira, 23 de julho de 2025

Trem da Saudade

“O Trem da Saudade”


Era um trem antigo.

Madeira rangendo, ferro batendo no coração do trilho.

As janelas escancaradas para o tempo que não volta.


Dentro dele, ninguém novo —

só lembranças sentadas, alinhadas, enlutadas,

com chapéus de feltro, vestidos floridos,

olhos marejando o passado.


A cada estação, uma memória subia.

Um cheiro de bolo da avó,

uma carta amarelada de amor,

a voz do pai chamando da varanda

— e até o latido do cão que se foi.


Ele não andava para frente.

Esse trem corria de ré,

como se recusasse o presente,

como se voltasse só pra buscar

o que o mundo deixou cair da mala.


Dizem que, em Macondo,

a Princesa Bárbara embarcou certa vez.

Vestia linho claro, cabelos soltos,

com uma rosa seca entre as páginas de um livro.

E enquanto o trem passava entre desertos, plantações, e fantasmas,

ela acenava para rostos que só ela via.

Uns sorriam, outros choravam.

Todos desapareciam antes da curva.


"O trem da saudade", dizem os poetas,

não tem estação final.

Ele roda eterno, no trilho da alma,

com apitos que lembram cantigas,

e bancos cobertos de pó de memória.


Se ouvir o apito…

não fuja.

Talvez ele venha te buscar.




Lamento de Porcelana

MADAME KUSHIMIZO 🇯🇵

"Lamento de Porcelana"
Na bruma azul do pincel que a moldou,
surge a gueixa de olhar silente,
feito flor que ao vento se calou
nos jardins de um Japão transcendente.

Seu rosto, alvura de lua esquecida,
reflete a dor que não se diz —
eco de uma alma adormecida
sob as sombras do Monte Fuji feliz.

As cerejeiras, em flor, choram seu canto,
folhas dançam no ar feito véu,
lembrando tempos de riso e encanto
sob o céu de um pagode fiel.

Por entre pedras, lagos e grama,
desliza sua dor em silêncio ritual,
como lâmina de um velho katana
de um samurai em duelo final.

São dois milênios que sussurram ao vento
poemas de honra, beleza e razão —
mas ela, só, no tempo cinzento,
guarda no peito uma imensa estação.

Seus cabelos são noite entre flores,
suas vestes, rubra tradição,
e em cada traço repousam amores
da eterna Nipônica na imensidão.

Oh, gueixa de porcelana e dor,
teu silêncio nos fala em japonês:
que a beleza é feita também de torpor,
e o passado é um templo que não se desfez.
Poema feito pela inteligência artificial.




Poema para uma árvore com nome e alma.

🌧️ ÁUREA
(poema para uma árvore com nome e alma)

Na calçada da infância, molhada de brisa,
uma árvore crescia sem pressa nem riso.
Minha mãe a plantou num tempo sem data,
com mãos de ternura e alma sensata.

Chovia. O céu derramava lembrança.
Meu pai fez um bolo — desses de infância.
Era simples, macio, com cheiro de lar,
bolo que abraça sem precisar falar.

Sob o guarda-chuva, fomos — mãe e eu —
até a árvore que o tempo cresceu.
E ali, na calçada sagrada de casa,
batizamos a árvore com nome de asa:

Áurea.
Nome de luz, de brilho discreto,
de ouro antigo, de gesto completo.
Oferecemos o bolo, um pedaço do ser,
como quem diz: “Você vai viver.”

Meu pai na janela sorriu em silêncio,
viu a cena pequena com olhar imenso.
E a rua, a chuva, o tempo e o chão
pararam por um segundo de contemplação.

Desde então, a árvore se fez memória,
com raiz no quintal e galhos na história.
E até hoje, quando o vento me toca,
ouço a Áurea sussurrar com voz de broca:

“Fui batizada com amor e farinha,
com chuva no céu e menina sozinha.
Agora sou árvore, nome e saudade,
sou o altar da tua primeira verdade.”

quinta-feira, 2 de março de 2023

Poética

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço
– Meu tempo é quando.

 Vinicius de Moraes - Nova York,

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Tempo Histórico e Espaço

Tempo Histórico e Espaço:

Os historiadores, além de se preocuparem em situar as ações humanas no Tempo, têm a tarefa de situá-las no espaço. Não se pode conceber um "fazer humano" separado do lugar onde esse fazer ocorre. O ambiente natural ou urbano, as paisagens, [...] as trajetórias, os caminhos por terra e por mar são necessáriamente parte do conhecimento histórico.

Circe Bitencourt

Ensino de História: fundamentos e métodos.

Drummond

Em 1982, Carlos Drummond de Andrade  sentado  num banco  do calçadão da  
Avenida  Atlântica.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Um homem e seu carnaval

Carlos Drummond de Andrade
Um homem e seu Carnaval

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Retrato de Carlos Drummond de Andrade, 1936, Portinari

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Não me prendo a nada que me defina.

Não me prendo a nada 
que me defina. 

Sou companhia, 
mas posso ser solidão. 

Tranquilidade e inconstância, 
pedra e coração. 

Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. 

Música alta 
e silêncio. 

Serei o que você quiser, 
mas só quando eu quiser. 

Não me limito, 
não sou cruel comigo! 

Serei sempre apego pelo que vale a pena 
e desapego pelo que não quer valer.

Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. 

Ou toca, 
ou não toca....

(Clarice Lispector)

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Sou louco.

EU

Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.

Depois, malograda trajectória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.

Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre

Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.

24-9-1923
Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956

sábado, 28 de janeiro de 2023

Garota de Ipanema.

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
A caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, por que estou tão sozinho?
Ah, por que tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor (3x)

Por causa do amor (2x)

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor (3x)

O Mar.

Eu e Dorival ❤️
O Mar
Dorival Caymmi

O mar quando quebra na praia
É bonito, é bonito

O mar... pescador quando sai
Nunca sabe se volta, nem sabe se fica
Quanta gente perdeu seus maridos seus filhos
Nas ondas do mar

O mar quando quebra na praia
É bonito, é bonito

Pedro vivia da pesca
Saia no barco
Seis horas da tarde
Só vinha na hora do sol raiá

Todos gostavam de Pedro
E mais do que todas
Rosinha de Chica
A mais bonitinha
E mais bem feitinha
De todas as mocinha lá do arraiá

Pedro saiu no seu barco
Seis horas da tarde
Passou toda a noite
Não veio na hora do sol raiá
Deram com o corpo de Pedro
Jogado na praia
Roído de peixe
Sem barco sem nada
Num canto bem longe lá do arraiá

Pobre Rosinha de Chica
Que era bonita
Agora parece
Que endoideceu
Vive na beira da praia
Olhando pras ondas
Andando rondando
Dizendo baixinho
Morreu, morreu, morreu, oh...

O mar quando quebra na praia

Canções Praieiras

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Eu e Drummond.

Eu e Drummond

No Meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade

sábado, 21 de janeiro de 2023

Amor-perfeito.

Improviso do Amor-Perfeito

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se alteia,
entre pálpebras de areia...

Longe, longe... Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

Cecília Meireles

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Os teus olhos .

Esse teu olhar
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas que eu não posso acreditar...
Doce é sonhar, é pensar que você,
Gosta de mim, como eu de você...
Mas a ilusão,
Quando se desfaz,
Dói no coração de quem sonhou,
Sonhou demais...
Ah, se eu pudesse entender,
O que dizem os seus olhos. 

Tom Jobim 
🌹
Art. (Antoine-Jean-Etienne Faivre) -1830-

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Na tua pele.

MANUEL ALEGRE
*
Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.
*
in SETE SONETOS E UM QUARTO, ( Dom Quixote, 2005)

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Maré

Saraiva Batarda
*
“Maré”
*
E nascemos sem nós querermos,
E vivemos sem saber
A razão porque vivemos.
Onda desfeita no ar,
Esperança que brada em espuma
Contra a muralha de pedra
Dum desconhecido destino.
E a maré, vida em fermento,
Nunca cansa de bater
Contra esse muro de granito
Na ânsia de o desfazer.

Bailarinas de cordas.

LÍLIA TAVARES, in BAILARINAS DE CORDA (Poética Ed, 2019)

Há mulheres como troncos em noites silenciosas nos bosques. Enfeitam-se de vestidos bordados e sedas de cores inimagináveis. Realçam as suas faces com pó-de-pétalas rosadas. Ataviam-se para as danças que só a lua sabe ensaiar, valsas de doce encantamento e sedução. Antes do amanhecer voltam a guardar todos os adornos na intimidade de um pequeno baú. Sem ruído deitam-se no leito onde são esquecidas. Acordam com o piar das pequenas aves. Leves, afogueadas, com o sonho voam.

*
Óleo s/ tela © Tomasz Alen Kopera
*

(LT)

Ser totalmente humano.

“Ser totalmente humano é ser selvagem.  Selvagem é a atração estranha e a sabedoria sussurrante.  É o empurrão suave e a dor forte.  É a sua verdade, transmitida pelos antigos, e o próprio fluxo de vida em seu sangue.  Selvagem é a alma onde reside a paixão, a criatividade e a aceleração do seu coração.  Selvagem é o que é real, e selvagem é a sua casa.”

Victoria Erickson