Poemas a Colombina
SIMPLISMENTE AMELIA FIDELISSIMA.
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
sexta-feira, 25 de julho de 2025
Preta Gil - Finitude
quarta-feira, 23 de julho de 2025
Trem da Saudade
“O Trem da Saudade”
Era um trem antigo.
Madeira rangendo, ferro batendo no coração do trilho.
As janelas escancaradas para o tempo que não volta.
Dentro dele, ninguém novo —
só lembranças sentadas, alinhadas, enlutadas,
com chapéus de feltro, vestidos floridos,
olhos marejando o passado.
A cada estação, uma memória subia.
Um cheiro de bolo da avó,
uma carta amarelada de amor,
a voz do pai chamando da varanda
— e até o latido do cão que se foi.
Ele não andava para frente.
Esse trem corria de ré,
como se recusasse o presente,
como se voltasse só pra buscar
o que o mundo deixou cair da mala.
Dizem que, em Macondo,
a Princesa Bárbara embarcou certa vez.
Vestia linho claro, cabelos soltos,
com uma rosa seca entre as páginas de um livro.
E enquanto o trem passava entre desertos, plantações, e fantasmas,
ela acenava para rostos que só ela via.
Uns sorriam, outros choravam.
Todos desapareciam antes da curva.
"O trem da saudade", dizem os poetas,
não tem estação final.
Ele roda eterno, no trilho da alma,
com apitos que lembram cantigas,
e bancos cobertos de pó de memória.
Se ouvir o apito…
não fuja.
Talvez ele venha te buscar.
Lamento de Porcelana
Poema para uma árvore com nome e alma.
🌧️ ÁUREA
(poema para uma árvore com nome e alma)
Na calçada da infância, molhada de brisa,
uma árvore crescia sem pressa nem riso.
Minha mãe a plantou num tempo sem data,
com mãos de ternura e alma sensata.
Chovia. O céu derramava lembrança.
Meu pai fez um bolo — desses de infância.
Era simples, macio, com cheiro de lar,
bolo que abraça sem precisar falar.
Sob o guarda-chuva, fomos — mãe e eu —
até a árvore que o tempo cresceu.
E ali, na calçada sagrada de casa,
batizamos a árvore com nome de asa:
Áurea.
Nome de luz, de brilho discreto,
de ouro antigo, de gesto completo.
Oferecemos o bolo, um pedaço do ser,
como quem diz: “Você vai viver.”
Meu pai na janela sorriu em silêncio,
viu a cena pequena com olhar imenso.
E a rua, a chuva, o tempo e o chão
pararam por um segundo de contemplação.
Desde então, a árvore se fez memória,
com raiz no quintal e galhos na história.
E até hoje, quando o vento me toca,
ouço a Áurea sussurrar com voz de broca:
“Fui batizada com amor e farinha,
com chuva no céu e menina sozinha.
Agora sou árvore, nome e saudade,
sou o altar da tua primeira verdade.”