sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Geração

“Somos uma geração que nunca mais vai voltar. Uma geração que foi à escola e voltou a pé. Uma geração que fez a lição de casa sozinha para sair o mais rápido possível para brincar na rua. Uma geração que passou todo o seu tempo livre na rua. Uma geração que brincava de esconde-esconde quando escurecia. Uma geração que fez bolos de lama e vagou pelos lagos. Uma geração que colecionava bolinhas de gude. Uma geração que adorava pirulitos com assobio e fazia caretas quando havia pó azedo no centro do pirulito. Uma geração que fez brinquedos de papel com as próprias mãos. Geração de walkman, cassete vhs, disquete… Uma geração que colecionou fotos e álbuns de recortes. A geração que assistiu o pai consertar a TV ou ajudá-lo a ajustar a antena. Uma geração que teve pais, não idosos. Uma geração que ria baixinho antes de dormir, para que os pais não soubessem que ainda estávamos acordados. Uma geração que está passando e, infelizmente, nunca mais voltará.”

___Autor Desconhecido

O alexandrino

O alexandrino
perdido nos becos dedáleos
de alexandria odorando a
tabaco e menta
a ranço e lilases languescentes
a gema de ovo apodrecendo com polvejos de canela
a esperma azul-grisáceo-amarelento
um homem de tez oliva
um gerôncio de olho irônico transbrilhante de saberes inusitados
prazeres perversos
e minuciosa (inútil) erudição bibliotecária
mira-me
um velho fitando outro
velho – pressinto
que naquela tavarna penúmbrea
onde se bebe anis e se honora o
absinto onde
algum talvez furtivo narguilê
borbulhe fumo agridoce
coado em úmido láudano – mulheres
gregas altilíneas de narizes retos e
cabelos negro-azeviche em corte à la
garçonne frisando rostos de alvíssima
cútis e / ou call-girls egípcias esfingéticas
professional beauties de olhos amendoados e tez cigana
afloaflando narinas quase-asas na
impecável cosmética dos rostos pupilas
vivazes como áspides sim:
pressinto – e sinto mais além
que garotos bronzeados e suave-
mente musculados adônis-ganimedes
feito o efebo marmóreo de adriano (caesar
romano imperador fileleno)
entram saem açulam-se quase-
-galgos esgalgues aprumando-se
na estação da caça

Konstantinos Kavafis

Um erro.

Um erro

Errar é doído, mas é lindo também. Aquilo que se aprende com um erro fica guardado na memória da pele. E essas marcas dolori- das, cicatrizes de aprendizado, de certa forma nos fazem mais bonitos.
Pode não parecer muito nobre dizer isso, mas, se hoje eu sei amar, é porque já errei muito. Não queria ter causado tanto sofri- mento, mas sinto que nada foi em vão. É como se cada término, cada deslize ou cada rom- pimento fosse não mais que uma cuidadosa preparação para amar de novo e ainda mais intensamente.

Amar, confiar e respeitar: é tudo treino. Todo dia. Todo dia. Todo dia.

Bruno Penido, 
Mordidas por dentro

Arte: Frida Kahlo por Gabriel Pacheco

Tempo

“Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno.” - Rubem Alves.

Rio de Lágrimas.

"Na minha alma, hoje, também corre um rio, um longo e silencioso rio de lágrimas que meus olhos fiaram uma a uma e que há de ir subindo, subindo sempre, até afogar e submergir na tua profundez sombria a intensidade da minha dor!..."
- Cora Coralina

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Satírico

Satírico 

Todas as mulheres para ti eram sexys e desejáveis 
Tu cobiçavas todas elas fossem formosas ou feiosas
Não tinhas preconceito de cor, todas eram transáveis.
Se eram gordas ou magras, para ti, todas eram apetitosas. 

Corrias atrás das mulheres solteiras, das separadas.
Perseguias as mulheres casadas, as viúvas, as beatas e caretas
As muito jovens, as mais maduras... muito te apetecia as safadas
Transavas com lascívia, satiríase. Armavas diversas mutretas.

E luxurioso sugaste com voracidade a essência delas, 
Sedento, carnal, alucinado te lambuzastes no mel. 
Esfomeado sorveste a seiva do odor feminino em gozadela.
Usastes seus corpos, fizestes um grande forfel.

Amastes majestosamente como se fosses sultão.
Amastes sem castidade e com grandiosa paixão.
Amastes alguma com puro amor.
Amastes dezenas sem muito pudor.

Amastes aquelas com privacidade.
Amastes outras com ambiguidade. 
Amastes umas com muito rumor 
conforme o amor se apresentou.

As labaredas do amor maníaco queimaram intimamente
o âmago da tua amada, mas não te estancou a sexualidade.
Nem mesmo o choro enternecido e o olhar plangente 
da tua benquerente refrearam a tua promiscuidade.

Desenfreadamente sorvestes o cálido amor
que te saciou o desejo carnal, mas não supriu
a tua essência. Para o teu espírito, sobrou desamor. 
Mas ainda te envaideces de tudo o que sucumbiu.  

Umbelina Marçal Gadelha
🌹
Art. (Charles James Lewis)