sexta-feira, 6 de novembro de 2015

DIVINOPOLIS
As hastes das gramineas
pesavam de sementes
sob a luz que,
asseguro-vos,
nascia da luz eterna,
Quis dize-la e nao pude,
ingurgitada de palavras
minha lingua se confundia,
cantei um hino conhecido
e foi pouco,
disse obrigada,Deus
e foi nada
Em meu auxilio
meu estomago doeu um pouco
pelo falso motivo
de que sofrendo
Deus me perdoaria.
Foi quando o trem passou
uma grande composiçao
levando oleo inflamavel
Me lembrei do meu pai
corrompendo a palavra
que usava so para trens,
dizendo "cumpusiçao"
O ultimo vagao na curva
e passa o pobre friorento de
blusa nova ganhada,
Aquiesci gozosa,
a lingua muda,
a folha branca,
a mao pousada.
ADELIA PRADO
O grao dentro das sacas,
as sacas dentro do comodo,
o comodo dentro do dia
dentro de mim sobre as pilhas
dentro da boca fechando-se de fera felicidade,Meu sexo,de modo doce,
turgindo-se em sapiencia,
pleno de si,mas com fome,
em forte poder contendo-se
iluminando sem chama minha bacia androgina
Eu era muito pequena
uma menina-crisalida
Ate hoje sei quem me pensa
com pensamento de homem:
a parte que em mim nao pensa e vai da cintura aos pes
reage em vagas excentricas,
vagas de doce quentura,
de um vulcao que fosse ameno,
me poe inocente e ofertada,
madura para olfato e dentes,
em carne de amor,a fruta ( o coraçao disparado,p.40 )
ADELIA PRADO

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Adélia Prado falando sobre o Amor- "Sarau" Globo News Túlio Mourão e Ren...

"Ex-Voto", de Adélia Prado. Por Elisa Lucinda.

Explicação de poesia sem ninguém pedir


Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

ADELIA PRADO
Casamento 


Há mulheres que dizem: 
Meu marido, se quiser pescar, pesque, 
mas que limpe os peixes. 
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, 
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. 
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, 
de vez em quando os cotovelos se esbarram, 
ele fala coisas como "este foi difícil" 
"prateou no ar dando rabanadas" 
e faz o gesto com a mão.


O silêncio de quando nos vimos a primeira vez 
atravessa a cozinha como um rio profundo. 
Por fim, os peixes na travessa, 
vamos dormir. 
Coisas prateadas espocam: 
somos noivo e noiva.

ADELIA PRADO.