terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Bailarinas de cordas.

LÍLIA TAVARES, in BAILARINAS DE CORDA (Poética Ed, 2019)

Há mulheres como troncos em noites silenciosas nos bosques. Enfeitam-se de vestidos bordados e sedas de cores inimagináveis. Realçam as suas faces com pó-de-pétalas rosadas. Ataviam-se para as danças que só a lua sabe ensaiar, valsas de doce encantamento e sedução. Antes do amanhecer voltam a guardar todos os adornos na intimidade de um pequeno baú. Sem ruído deitam-se no leito onde são esquecidas. Acordam com o piar das pequenas aves. Leves, afogueadas, com o sonho voam.

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Óleo s/ tela © Tomasz Alen Kopera
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(LT)

Ser totalmente humano.

“Ser totalmente humano é ser selvagem.  Selvagem é a atração estranha e a sabedoria sussurrante.  É o empurrão suave e a dor forte.  É a sua verdade, transmitida pelos antigos, e o próprio fluxo de vida em seu sangue.  Selvagem é a alma onde reside a paixão, a criatividade e a aceleração do seu coração.  Selvagem é o que é real, e selvagem é a sua casa.”

Victoria Erickson

Soneto da doce queixa.

Soneto da doce queixa

Tenho medo de perder a maravilha
de teus olhos de estátua, e o acento
que a face me cobre na mantilha
da noturna rosa só de teu alento.

Tenho pena de à beira dessa trilha
ser o tronco sem ramos, e o lamento
de não ter seja flor, polpa ou argila,
para o verme que é meu sofrimento.

Se tu eras meu tesouro que sumiu,
se eras minha cruz, mal afogado,
se sou o cachorro de teu senhorio

não me deixes perder o já ganhado
e decora as águas de teu rio
com folhas desse Outono transtornado. 
Frederico Garcia Lorca.

Afago.

Afago é um jeito gostoso de emprestar sossego, de segurar a mão e doar o coração todo pra te ajudar no desapego. 
É lembrar suas qualidades quando você está precisando de uma transfusão de amor próprio e autoestima. 
É desabrochar em você a poesia que perdeu a rima... 

Maria de Queiroz
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sábado, 14 de janeiro de 2023

Elfos ou gnomos

Elfos ou gnomos tocam

Elfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais...
 
Ondulam como em voltas
De BH estradas não sei onde,
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde...
 
Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro...
Porque choro não sei...
 
Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste...
 
Mas cessa, como uma brisa,
Esquece a forma aos seus ais,
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais...

Fernando Pessoa

25-09-1914
Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Acordo

Eu fiz um acordo com o tempo...
Nem ele me persegue, nem eu fujo dele...
Qualquer dia a gente se encontra e,
Dessa forma, vou vivendo
Intensamente cada momento... 

Mário Lago
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O tempo seca a beleza.

Cecília Meireles
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O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.