quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Último poema.

ÚLTIMO POEMA DATADO DE RICARDO REIS

Vivem em nós inúmeros;  
Se penso ou sinto, ignoro  
Quem é que pensa ou sente.  
Sou somente o lugar  
Onde se sente ou pensa.  

Tenho mais almas que uma.  
Há mais eus do que eu mesmo.  
Existo todavia  
Indiferente a todos.  
Faço-os calar: eu falo. 

 
Os impulsos cruzados  
Do que sinto ou não sinto  
Disputam em quem sou.  
Ignoro-os. Nada ditam  
A quem me sei: eu escrevo. 

*

13-11-1935

Ricardo Reis

In Ricardo Reis. Poesia. edição de Manuela Parreira da Silva. Assírio & Alvim. 2.ª* edição, junho de 2007.

Imagem: Mário Botas - Mapa da Sepultura do Poeta

Crianças

As crianças são filhos do mundo e são feitas de sonhos, de esperança e de ilusões que constroem em suas mentes livres e privilegiadas.

Sobreviver é histeria

sobreviver é histeria

o que é mais feminino do que ser forçada a ficar sozinha
o que é mais feminino do que não ser capaz de se ver sozinha
o que é mais feminino do que ter medo de ficar sozinha
o que é mais feminino do que querer – e não conseguir – estar sozinha
o que é mais feminino do que sobreviver

o que é mais feminino do que não morrer de raiva
porque ensinar já virou rotina
porque cuidar já virou rotina
porque pedir desculpas já virou rotina

o que é mais feminino do que competir por uma vida que não quer
porque nasceu ou se descobriu mulher
porque querer ser mulher é fraqueza
porque não ser mulher, mas acharem que você parece mulher, é fraqueza

o que é mais feminino do que não ser suficientemente mulher
o que é mais feminino do que não ser suficiente

quando penso em quantas vezes mascarei a compulsão com o fumo
quando penso em quantas vezes cobri o seio para não fechar o punho
quando penso em quantos deles se sentaram ao meu lado sem assunto

eu me pergunto

o que é mais feminino do que o silêncio
o que é mais feminino do que gritar e te mandarem fazer silêncio
o que é mais feminino do que não pedir socorro e te perguntarem
mas por que é que você fez silêncio

Nina Camargo 

Loucura

LOUCURA

Loucura! É não partir à procura!
Desses teus beijos, abençoados.
Dados ao luar, com essa doçura,
Que conforta os lábios sagrados.

Loucura! É não procurar o rosto,
Da humanidade em ti escondida.
E ficar eternamente no desgosto,
De não encontrar sentido da vida.

Loucura! É não partir à procura!
Desse teu corpo frágil e sensual.
Onde está contida a divina cura,
Para o meu ser, efémero mortal.

Joaquim Jorge Oliveira
🌹
Art. (Gustave Jean Jacquet)

Costurando Lindeza.

A gente vai costurando lindezas, colando carinhos, remendando lembranças, cersindo aprendizados, e quando vemos, estamos desfazendo nós e dando lanços...
Assim é a vida
Assim e a amizade
Assim é o amor.
Se não soubermos ajeitar as coisas, contornar situações, engavetar desafetos, e abraçar as diferenças, nunca seremos nada, nunca teremos nada, e o nada simplismente nos esvazia de sentimentos e sem sentimentos nunca seremos coisa alguma, quanto mais alguém.
Construa.
Refaça.
Recrie.
Ame....

Terezinha Costa Honorato 
20/ 11/ 2022
🌹
Art. (Charles Joseph Frédéric Soulacroix) 
-1825-

Mãe 🌹

“Mãe"
.
Por seus filhos deu a vida
Mas a velhice foi-lhe sentida
Na mesa sequer havia pão

Restou-lhe apenas a partida
Sem ninguém prá despedida
Morreu de fome e solidão 
-
Tanta coisa por cumprir,
Sua porta nunca chegou ábrir
Seus filhos seguiram outros trilhos

Anos e anos à espera duma visita, 
Mas a sua morte maldita
Chegou primeiro que seus filhos.
.
José Carlos SC
Escritos Engavetados
🌹

sábado, 17 de março de 2018

Mulher

Deus, mulher caprichosa e
perdida na vaidade
diante do espelho
contempla sua face
e se maquia, retoca
faz e refaz as
linhas e as cores
que o espelho
generoso reflete.

Espelho, Universo,
no qual Deus
caiu na armadilha
de sua própria
beleza,
Amou o espelho
e nele absorvido
escravo, não
vê onde termina
o espelho e começa
sua face.

Basta contemplar
as estrelas, o oceano,
os montes, o sorriso
das crianças
o corpo de amantes
fazendo amor para se
medir o alcance da
loucura desse
Deus mulher.
Onaldo